2011-11-10

If you don't make a friend now, one might make you

Se pretendem fomentar um ambiente de trabalho livre de tensões mudas e olhares recriminadores e preferem o vosso café sem arsénico, pensem bem antes de, como eu, responder à pergunta "queres entrar no amigo secreto deste ano?" com um "eu não tenho paciência para procurar e comprar prendas para as pessoas de quem gosto, quanto mais para vocês."

2011-11-09

Para quem quer aprender a dançar...

2011-11-03

Put your lips together and blow


Massajei o pescoço dorido de mais um sono inquieto à secretária, com o Jack Daniels como almofada e os meus pesadelos por companhia, enquanto observava a chuva batendo no vidro. Lá fora, a manhã cinzenta e fria não augurava nada de bom.

Ela entrou-me pela porta como um vendaval entra... por uma porta, com pernas que iam do chão até ao sítio onde as pernas começam, olhos, dois, de um azul tão intenso que pareciam castanhos, capazes de incendiar a alma e um corpo capaz de a condenar. O dia acabou de melhorar, segredei eu à garrafa de Stolichnaya.

Estavas a dormir? No trabalho?, indagou ela, referindo-se, provavelmente, aos meus olhos vermelhos.
Acho que ainda estou, disse-lhe eu, aproximando-me e acariciando a linha do seu rosto com o indicador, porque tu saíste directamente dos meus sonhos, boneca.

Ela afastou a minha mão como se não me quisesse. Ah, o intemporal jogo de sedução, do gato e do rato. Sorri para mim mesmo. E para ela também. Sim, pensei, eu jogo, mas comigo o jogo é o Monopólio: dá as voltas que quiseres, bebé, mas no fim acabas num hotel do Campo Grande.

Tentei ligar-te montes de vezes, mas dá sempre sinal de imp..., interrompeu-se ao avistar o telefone no chão, em pedaços, entre as garrafas de cerveja, um martelo e um LP da Roberta Flack.
A linha tem problemas, referi casualmente, acabando a garrafa de Gin de um trago e acendendo um cigarro.

Tenho um problema, disse ela, recuando um passo, o pensamento claramente toldado pela inegável e crescente tensão sexual entre nós.
Um problema..., pensei eu com um esgar trocista, mulheres como ela eram o problema. Um problema tão indecifrável como um cubo de Rubik para um daltónico.
Hã?!, interpelou ela de sobrolho franzido.

Às vezes penso em voz alta. O que pode ser problemático, principalmente quando, como agora, pensava na forma dos seus generosos seios. Os seus generosos, arquejantes e provavelmente simétricos seios.

Pára com isso! Esses comentários são completamente inapropriados e nojentos. Tu és nojento, rematou ela, tentando, em vão, resistir à atracção. A impressora tem um paper jam e não consigo tirar o papel. Já tentei com uma pinça e tudo, mas não consigo. Ajudas-me ou não?

As suas palavras diziam uma coisa, mas a sua linguagem corporal - os braços cruzados, o pé tamborilando impacientemente no chão - era a linguagem da luxúria.

Atirei o cigarro para o cesto, agarrei-a pelo pulso e puxei-a para mim. Escuta, fofa, mulheres como tu são apenas sarilhos com saias, voz aveludada e seios arquejantes.
Mau...
E eu preciso de mais sarilhos tanto como preciso de mais... coisas idênticas a sarilhos.
Dás-me ao menos o número da assistência técnica?, implorou ela, libertando-se - de mim mas não do desejo.
Ok!, exclamei, Ganhaste! Não posso resistir a esses olhos doces. Nem ao ondular dos teus seios arquejantes.
Oh que car...
Shh, interrompi eu, pousando o indicador sobre os seus lábios, a ponta acariciando a gengiva húmida, não precisas dizer nada.
Tens a mão pegajosa...
É da cola, respondi de pronto.

Ambos olhámos em volta; não havia tubos de cola à vista.

Não podes provar nada, completei, interrompendo o silêncio momentâneo.

De súbito a sua expressão assume um tom alarmado, com certeza uma manifestação do seu anseio de volúpia.

Fogo, disse por fim.
Sim, querida, também o sinto, o amor é fogo que arde sem se ver, disse-lhe enquanto acabava a garrafa de Patrón.
Não, fogo!, voltou a exclamar.
Sim, fogo.
O cigarro...
O cigarro vem no fim, chérie, disse-lhe com uma piscadela de olho. Sentes a paixão que te intoxica, não é?
É o fumo!, guinchou, de forma pouco atraente.
Sim, coração, o fumo... o fumo do desejo, completei, tentando fazer sentido do que dizia. Uma coisa era certa: o seu forte não era a palavra. (Eram os seios arquejantes.)

Saiu, correndo, decerto com medo de ceder à tentação, deixando-me a sós com a ressaca que ameaçava acantonar-se no meu corpo. Uma ressaca horrível, por sinal, como se até ouvisse sirenes. Sorri, dando um último gole de Havana Club. AD, seu sacana, pensei eu, és um pinga-amor incorrigível.