2012-02-10

Perna de pau seria um título apropriado por mais de uma razão

Carla: (...) mas o sonho de todos os homens é duas mulheres.
Eu: O meu é. Uma para aspirar e outra para engomar.
Carla: Que machista, pá!
Eu: Ná. Prático. O interesse acaba mais tarde ou mais cedo, mas roupa amarrotada tenho todos os dias.
Joana: Mas duas para quê? Só dão conta de uma de cada vez.
Eu: Que falta de imaginação...
Joana: Não é? Ao contrário tudo bem, as mulheres têm três buracos.
Eu: "Buracos"?! És uma romântica incurável.
Joana: Oh! Chamas-lhe o quê?
Eu: Interfaces do amor. E além disso não são necessariamente três. Eu uma vez conheci uma rapariga com um olho de vidro. E nesse caso já eram quatro. Três e meio, vá.

2012-01-06

Nunca mais é Março...

Será que também vão ao programa do Goucha?

2012-01-05

A punchline é "e é por isso que deixei de beber tequilha antes de me deitar"

sonhei que entrava numa floresta
a escuridão envolvendo-me
as árvores crescendo selvagens
obstruindo um caminho invisível que insistia procurar
e que existia apenas na minha convicção
no ar apenas o silêncio
quebrado aqui e ali pelos meus passos esmagando as folhas caídas
as árvores cada vez mais densas
como que lutando entre si por um lugar, pela vida

foi então que reparei que as árvores não eram árvores
eram corpos
corpos tentando fugir à terra
esticando seus braços para o céu
pedindo clemência
faces deformadas pelo horror
no chão as folhas não eram folhas
eram lágrimas geladas
e gritos petrificados que se quebravam debaixo dos meus pés

onde antes havia silêncio havia agora o gemido incessante de um vento frio que me cortava a face
e o gemido passou a uivo
e o uivo passou a grito
e o grito a um coro de choro e lamúrias indecifráveis que pareciam chamar por mim
as raízes, os membros deformados, prendiam-me as pernas
puxavam-me para si
quis correr, fugir, mas as árvores, os corpos, empurravam-me
detiam-me
derrubavam-me

haveria decerto uma saída
pensei que haveria decerto uma saída
mas a cada passo o espaço diminuia
as árvores, os corpos, mais e mais perto
negavam-me a retirada e a esperança
os seus galhos, os seus braços, enrolando-se no meu pescoço
o espaço, nenhum
o ar, pouco
imóvel
preso
a minha voz juntando-se ao vento

reparei então
com o último suspiro
que a face das árvores, dos corpos
era a minha

2011-12-30

A heart full of napalm

"Que ar tão triste", disse a minha colega ao passar por mim no corredor esta manhã. Triste? Triste?! Eu não fico triste! A tristeza é uma disposição feminina. Os homens - pelo menos os homens de verdade, dos que têm pêlos no peito - mas pêlos a sério, daqueles crespos, que encaracolam e dão para arear pratas - não ficam tristes. Alguém alguma vez viu o Clint Eastwood triste? Claro que não. O mais perto que ele alguma vez chegou de estar triste era quando se lhe acabavam as balas do seu revólver e tinha de parar de matar mal-feitores. "Ah, mas no Million Dollar Baby ele até chora." Sim, chora, mas é de raiva por não ter o seu seis-tiros para matar o banquinho que matou a Hillary Swank. Por isso, em conclusão, nós, os que não gostamos de nos depilar para ficar suavezinhos como uma menina de 12 anos, não ficamos tristes. Ficamos zangados. Furiosos. Enraivecidos. Coisas assim, másculas, que invocam imagens mentais de gritos primordiais lançados aos céus sob chuva intensa enquanto relâmpagos rasgam a noite escura e heavy metal se ouve ao fundo. Entendido?

2011-12-15

Speaking in tongues

Muita gente me pergunta como é que eu consigo ser um conversador tão bom, de respostas e tiradas tão rápidas quanto espirituosas e, globalmente falando, um ser humano de valor superior à média. A verdade é que não é fácil e requer, até, bastante trabalho. Todos os dias dedico algumas horas para anotar algumas frases, seleccionar as melhores e decorá-las para que, mais tarde, as possa usar. É um processo moroso, por vezes frustrante, mas essencial para que quando em situações sociais não submetamos os convivas a conversas de baixo índice de interesse ou a frases desprovidas de espirituosidade, estilo ou de sentido único.

E tanto elaboro frases e bitaites generalistas como pessoais, intencionados para pessoas específicas. Tenho aqui uma em inglês, por exemplo, para atirar à Emilija - meu Deus, a Emilija... - da próxima vez q -- deixem-me só fazer aqui um apart... aparthai... àpar... parêntesis: eu sou um homem discreto. Não sou o tipo de indivíduo que olha alarvemente para todo o rabo de saia que passa como se a sua próxima refeição dependesse exclusivamente da correcta avaliação da copa alheia. Está no meu raio de visão directa ou periférica? Então aprecio, discretamente, por vezes entortando os olhos, é certo, de maneira a conseguir acompanhar, finalizando com um "porreiro, pá, porreiro" à Sócrates para mim mesmo, mas é só. Não me volto, não assobio, nem as sigo até casa para descobrir a morada e o número de telefone para depois lhes ligar de madrugada com respiração ofegante como a Sónia do 12º E disse que fiz. Bom, eventualmente arquivo a imagem mental para utilização posterior, mas isso é outra história. No entanto ela - a Emilija - apanha-me sempre desprevenido, como se o meu cérebro não fosse capaz de processar a imagem que os olhos lhe transmitem, começasse a gritar DOES NOT COMPUTE e simplesmente se desligasse, tranformando-me num idiota capaz apenas de comunicar por grunhidos -- mas dizia eu, tenho aqui uma em inglês para mandar à moça da próxima vez que a vir: I'm no Casanova but I'd make you moan like Sharapova, make you collapse like a supernova, until you scream "I quit, game ova." Ok, não é Shakespear, mas dado que eu também não consigo articular grande coisa na presença dela sem me babar, não faz grande diferença. Aliás, se eu hoje sei o nome dela isso é nada menos que um milagre:

- Hey... I... you... I AD, yes?
- Hum... hi. I'm Emilija.
- Yes. Nice. Emília. Like... like Place of Picapau Yellow, yes? Haha...
- Hum?...
- Yes. Place... Saci Pererê. Sassai!
- Err... sorry, what?...
- Sassai Pererui... and Pedro and Chico...
- I'm not... I have to go...
- Ah, no, wait, Chico was other thing with dog and other dog and twin...
- I really have to go. Bye.
- ... but I lubidubidu (*)...

Na verdade, e atendendo ao passado, até acho que correu bem.



(*) Juro que em russo, foneticamente, isto quase faz sentido.

2011-11-10

If you don't make a friend now, one might make you

Se pretendem fomentar um ambiente de trabalho livre de tensões mudas e olhares recriminadores e preferem o vosso café sem arsénico, pensem bem antes de, como eu, responder à pergunta "queres entrar no amigo secreto deste ano?" com um "eu não tenho paciência para procurar e comprar prendas para as pessoas de quem gosto, quanto mais para vocês."

2011-11-09

Para quem quer aprender a dançar...

2011-11-03

Put your lips together and blow


Massajei o pescoço dorido de mais um sono inquieto à secretária, com o Jack Daniels como almofada e os meus pesadelos por companhia, enquanto observava a chuva batendo no vidro. Lá fora, a manhã cinzenta e fria não augurava nada de bom.

Ela entrou-me pela porta como um vendaval entra... por uma porta, com pernas que iam do chão até ao sítio onde as pernas começam, olhos, dois, de um azul tão intenso que pareciam castanhos, capazes de incendiar a alma e um corpo capaz de a condenar. O dia acabou de melhorar, segredei eu à garrafa de Stolichnaya.

Estavas a dormir? No trabalho?, indagou ela, referindo-se, provavelmente, aos meus olhos vermelhos.
Acho que ainda estou, disse-lhe eu, aproximando-me e acariciando a linha do seu rosto com o indicador, porque tu saíste directamente dos meus sonhos, boneca.

Ela afastou a minha mão como se não me quisesse. Ah, o intemporal jogo de sedução, do gato e do rato. Sorri para mim mesmo. E para ela também. Sim, pensei, eu jogo, mas comigo o jogo é o Monopólio: dá as voltas que quiseres, bebé, mas no fim acabas num hotel do Campo Grande.

Tentei ligar-te montes de vezes, mas dá sempre sinal de imp..., interrompeu-se ao avistar o telefone no chão, em pedaços, entre as garrafas de cerveja, um martelo e um LP da Roberta Flack.
A linha tem problemas, referi casualmente, acabando a garrafa de Gin de um trago e acendendo um cigarro.

Tenho um problema, disse ela, recuando um passo, o pensamento claramente toldado pela inegável e crescente tensão sexual entre nós.
Um problema..., pensei eu com um esgar trocista, mulheres como ela eram o problema. Um problema tão indecifrável como um cubo de Rubik para um daltónico.
Hã?!, interpelou ela de sobrolho franzido.

Às vezes penso em voz alta. O que pode ser problemático, principalmente quando, como agora, pensava na forma dos seus generosos seios. Os seus generosos, arquejantes e provavelmente simétricos seios.

Pára com isso! Esses comentários são completamente inapropriados e nojentos. Tu és nojento, rematou ela, tentando, em vão, resistir à atracção. A impressora tem um paper jam e não consigo tirar o papel. Já tentei com uma pinça e tudo, mas não consigo. Ajudas-me ou não?

As suas palavras diziam uma coisa, mas a sua linguagem corporal - os braços cruzados, o pé tamborilando impacientemente no chão - era a linguagem da luxúria.

Atirei o cigarro para o cesto, agarrei-a pelo pulso e puxei-a para mim. Escuta, fofa, mulheres como tu são apenas sarilhos com saias, voz aveludada e seios arquejantes.
Mau...
E eu preciso de mais sarilhos tanto como preciso de mais... coisas idênticas a sarilhos.
Dás-me ao menos o número da assistência técnica?, implorou ela, libertando-se - de mim mas não do desejo.
Ok!, exclamei, Ganhaste! Não posso resistir a esses olhos doces. Nem ao ondular dos teus seios arquejantes.
Oh que car...
Shh, interrompi eu, pousando o indicador sobre os seus lábios, a ponta acariciando a gengiva húmida, não precisas dizer nada.
Tens a mão pegajosa...
É da cola, respondi de pronto.

Ambos olhámos em volta; não havia tubos de cola à vista.

Não podes provar nada, completei, interrompendo o silêncio momentâneo.

De súbito a sua expressão assume um tom alarmado, com certeza uma manifestação do seu anseio de volúpia.

Fogo, disse por fim.
Sim, querida, também o sinto, o amor é fogo que arde sem se ver, disse-lhe enquanto acabava a garrafa de Patrón.
Não, fogo!, voltou a exclamar.
Sim, fogo.
O cigarro...
O cigarro vem no fim, chérie, disse-lhe com uma piscadela de olho. Sentes a paixão que te intoxica, não é?
É o fumo!, guinchou, de forma pouco atraente.
Sim, coração, o fumo... o fumo do desejo, completei, tentando fazer sentido do que dizia. Uma coisa era certa: o seu forte não era a palavra. (Eram os seios arquejantes.)

Saiu, correndo, decerto com medo de ceder à tentação, deixando-me a sós com a ressaca que ameaçava acantonar-se no meu corpo. Uma ressaca horrível, por sinal, como se até ouvisse sirenes. Sorri, dando um último gole de Havana Club. AD, seu sacana, pensei eu, és um pinga-amor incorrigível.

2011-10-26

That pond it seems me many multiplied of fishes, let us amuse rather to the fishing

A separação da namorada deixou o meu irmão destroçado ao ponto de já ter ameaçado atirar-se da ponte, o que me deixa verdadeiramente preocupado. Essencialmente porque somos siameses.

2011-10-17

Why won't you give me your love?

"Cheiras mal do sovaco e tens caspa", berrei eu no calor do momento. Segundo parece ainda não domino bem a arte do dirty talking.