Esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com a manhã de domingo passado é pura coincidência.O nosso herói, jovem garboso e a roçar a espectacularidade, acordou com o
pi pii pi pii de uma nova mensagem, a sensação de ter levado um pontapé na cabeça e um murro no estômago, e a boca tão seca que nem a costumeira poça de baba tinha na almofada. E, a julgar pela maneira como o tecto do quarto rodava e oscilava, seria até capaz de jurar que estava deitado num colchão d'água instalado em cima de um touro mecânico encarnado pelo espírito do John Wayne.
Segurou o telemóvel a dois centímetros dos olhos semicerrados enquanto tentava focar as letras. "Bom dia! Sempre contamos com a tua presença hoje à tarde?:)" "Dois pontos fecha parêntesis? A sério? Quem é que sorri às... fónix! Às 9h13?!", pensou ele enquanto ponderava sobre a falácia de oferecer os seus préstimos sem pensar duas vezes apenas porque quem lho pede tem grandes olhos castanhos e longas e sedosas pestanas que bate de forma tão descarada como eficaz.
Tentou rebolar para o outro lado sem cair da cama mas, ainda a meio desta delicada manobra, que na altura lhe pareceu apenas ao alcance de ginastas chineses pré-púberes, uma dúvida invadiu o seu espírito: "Terei desligado os faróis?" Levantou-se num ápice e, após recuperar o equilíbrio, calçou as pantufas e deslocou-se até à porta do prédio para verificar. "Então mas... onde é que está o carro?! Terei deixado as portas abertas? Espera... como é que eu vim para casa?"
Coçou a cabeça primeiro e a nádega direita depois, encolheu os ombros e decidiu ir comer qualquer coisa antes de se preocupar com isso - afinal de contas o carro não era exactamente aquilo que alguém se gabaria de roubar. Ainda pensou ir bater à porta da vizinha do 2º B, aquela que conduz um jipe demasiado grande para ela e lhe sorri com o aparelho todo sempre que ele lhe segura a porta - não por cavalheirismo, que esse é um conceito que lhe é tão estranho como lavar os dentes ao fim de semana, mas porque aproveita essas ocasiões para lhe tirar fotografias ao rabo com o telemóvel - mas achou que aparecer de calças de pijama velhas e gastas e
t-shirt do Mighty Mouse a cravar uma tosta mista talvez a levasse a chamar a polícia. E ele não estava com cabeça para histerismos e bastonadas.
O carro, esse, como mais tarde viria a descobrir, estava seguro e bem estacionado à porta de onde tinha jantado na noite anterior. Ainda disse várias vezes as palvras "Kitchi, Kitchi, vem mi buscá amigão" para o mostrador do relógio, mas não resultou. Enfim, nada como uma caminhada para abrir o apetite.